
Já sonhei que era um peixinho e nadava com meus amigos próximo à praia. Nos divertíamos com as ondas, enquanto elas nos levavam e nos puxavam pra próximo da areia. E eu achava o máximo aquela areia bem fina e os reflexos do sol na água límpida e cristalina. Nossos gritos, em nossa língua de peixe, eram finos e se misturavam com as risadas dadas por conta dos "Micos" que nós peixinhos pagávamos. E meu sonho humano ia acontecendo: era um peixe-criança e me divertia com meus amigos. Já sonhei que era uma jovem e sonhadora "peixona" e me apaixonei por um rapaz à bordo de um navio. Viajava quilômetros acompanhando a embarcação que levava o meu amor. No sonho, ele podia me entender, eu contava pra ele minhas histórias de peixe e ele me narrava suas histórias de pescador. Foram muitos os encontros no mar, eu poeticamente olhava para as estrelas, enquanto ele as lia como quem houvesse estudado astronomia náutica. Era só um sonho, mas teve muitos capítulos, muitos intervalos entre um fechar e abrir de olhos. Já sonhei que era um peixe-mulher, e queria namorar, mas, informada sobre a reprodução humana, criei uma rebelião entre as peixinhas, querendo uma audiência com Deus, no intuito de reivindicar mudanças no sistema. Nós, peixinhas, queríamos os mesmos direitos das humanas, e não liberávamos mais nossos óvulos na água para que algum espermatozóide os fecundasse. Quero destacar que em todos os sonhos era uma Marlim Azul, um peixe oceânico, e não uma celebridade, com o sucesso do famoso peixinho de água doce. Queríamos reprodução sexuada, e eu liderava a rebelião. Lembro ainda de ter sido um amiga-peixe depois de ter sido apanhada pela rede de um pescador, fui destacada entre todos os demais peixes, e docilmente colocada em uma caixa de isopor cheia de água, ele me disse que eu era diferente e que merecia uma nova chance, tornou-se meu amigo. Eu, assustada por ter sobrevivido ao arrastão da rede, retribuí, com minha amizade e carinho. Não lembro se tive mais sonhos como peixe, mas lembro bem desses. E, da minha vida de peixinho, queria poder manter 4 coisas: o espírito infantil, que brinca à beira mar; o sonho de conhecer outros mares e formas de vida; o carinho do jovem leitor de estrelas, entendido de ciências náuticas; e, a fé na existência de vida após a rede.

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